O NÚMERO DE CANDIDATOS ASSASSINADOS REPRESENTA VERDADEIRO ATENTADO À DEMOCRACIA

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Eugênio Ricas é Delegado Federal, Adido da PF nos EUA, Mestre em Gestão Pública pela UFES

A maioria de nós tem acompanhado o desenrolar das eleições municipais no Brasil. Alguns com mais entusiasmo, outro com menos, mas a maior parte está interessada em saber quem serão os responsáveis por gerir o futuro de nossas cidades. O que muitos não sabem, no entanto, é que a democracia no Brasil tem sofrido golpes fatais durante esta eleição.

          Conforme divulgado pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), ao menos 84 candidatos a cargos de prefeito ou vereador foram mortos durante este pleito eleitoral. A estimativa é de que pelo menos outros 80 tenham sido vítimas de tentativas de homicídio. A cada 3 dias um candidato tem sido assassinado no Brasil, durante a campanha eleitoral.

          Os números são assustadores e autorizam a elaboração de pelo menos duas hipóteses para tentar explicar o motivo de tanta barbárie. Na primeira delas é possível cogitarmos a possibilidade de que organizações criminosas ligadas ao narcotráfico e a milícias estejam tentando infiltrar-se no ambiente político, a fim de adquirir maior poder e influência. Por se tratar, portanto, de pessoas com conexões profundas em um ambiente de extrema violência, as mortes seriam derivadas do próprio cenário onde tais candidatos habitualmente se movimentam. Tal fenômeno não é novidade em outras partes do mundo, sendo muito presente, por exemplo, em algumas cidades da Colômbia e do México.

          Uma segunda hipótese seria o caso de adversários políticos estarem se valendo da violência para eliminação de opositores ideológicos. Neste caso, ao invés de se debater a ideia e buscar o convencimento do eleitor, opta-se pelo homicídio de seu adversário.

          Difícil estabelecer qual hipótese é pior e mais nociva à democracia brasileira. Diante desta realidade nos deparamos com um verdadeiro dilema onde não há, no caso concreto, opção satisfatória ou saída conveniente. Não há, também, solução de curto prazo para problema tão grave. Destaque para o fato de que o número de candidatos mortos é apenas um sintoma de uma doença que pode, silenciosamente, gerar a falência generalizada do Brasil.

          A política, como instrumento civilizatório que é, precisa contar com pessoas íntegras e predispostas a contribuir para uma mudança positiva na sociedade em que vivemos. O cenário vivido atualmente no Brasil tem o verdadeiro potencial de distorcer por completo a essência desse importante instrumento de transformação social, podendo levar nossas cidades e nosso país a uma realidade nefasta, onde as instituições públicas passam a ser dominadas por organizações criminosas.

          Não há dúvida de que estamos diante de um grave problema de segurança pública. Não há dúvida também de que não se trata de um caso de polícia apenas. Ou o Brasil estabelece como prioridade a educação aliada a políticas que diminuam a desigualdade social existente hoje ou estaremos cada vez mais próximos do subdesenvolvimento crônico. Estaremos, também, cada vez mais distantes do país que desejamos para nossos filhos.