Artigo do Dr. Rui de Oliveira no Correio do Estado

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O passado deve estar sempre presente na memória de um povo. Este é um princípio justo que revive o altruísmo e as atitudes daqueles que buscam o bem estar de todos. 

Algumas vezes o bem e o mal se misturam, invocando uma análise personalíssima, chegando até a um impiedoso sofisma.  Recordo, em rápida reminiscência, sem envolver-me no misticismo e no saudosismo de gestos e atitudes que revelaram a solidariedade humana, que não se confundem. Por isso, indaga-se: pode a prática de um bem afastar ou absolver quem praticou o mal?

Um fato real ocorrido no fluir de 1997 deve ser trazido ao espírito analítico do intérpetre, para uma profunda reflexão. Verdade. 

Um rapaz e uma moça, ambos de origens humildes, sem profissão sobreviviam de restos de comida que lhes eram dados por pessoas que entendiam aquela situação dramática de vidas humanas. Dia de muita chuva, se conheceram na Praça Dr. Ary Coelho. Aconteceu naquele momento a troca de olhares – seguidos de confissões de amor. Ele disse: sou pobre. Ela respondeu: eu também, tudo num só momento e, em expressões misturadas, disseram: VAMOS VIVER JUNTOS. 

Iniciou-se uma união estável. Sobreviviam de pequenas esmolas e restos de comida. Dormiam em um pedaço de papelão e tinham como utensílios domésticos, para refogar sem gordura o alimento do casal, duas latas de azeite (vazias), que houvera ganhado de pessoas de bom coração. 

Animados pelo analfabetismo, pela bebida e, principalmente pelo amor, começou a formar uma família, pois aquela moça engravidou. Com a gravidez, seus pais tentaram ajudá-la, mesmo sendo pobres também. 

Ao dar-lhes a notícia de que iria levá-la para casa, bateu-lhe o desespero.  Na iminência da separação, o casal consultou uma senhora amiga e muito conhecida na zona sul da Capital. Essa senhora, que se tornou consultora do casal, cuidava de seis crianças que foram encontradas abandonadas na rua e era também protetora de cinco cães. Essa consultora e conselheira fazia diariamente o uso de bebidas alcoólicas, mas era lutadora incansável, vendia frutas em um carrinho construído com rodas de bicicleta. O pouco dinheiro que ganhava somando as doações de ossos bovinos que recebia, alimentava as crianças com uma suculenta sopa.  

Sentados em um banco na praça discutiram e concluíram que a fuga era a única saída para o casal. Reuniram as peças de roupas esfarrapadas e encardidas, partiram sem norte. Foram pernoitar debaixo de uma árvore na rodovia Campo Grande – São Paulo, logo após o antigo posto da Polícia Federal, que na época ainda não existia. 

No dia seguinte, aquela moça deu à luz um menino, sem nenhuma experiência de parto. A criança nasceu inteiramente desassistida, sem cueiro e sem fralda, sem mamadeira, alimentando-se unicamente de leite materno, enfraquecido pela desnutrição da genitora. Diante daquela situação e do choro copioso do menino, o casal voltou a procurar a conselheira na Vila Jockey Club, onde chegou por volta das 16h. Pai, mãe e filho foram recebidos gentilmente. Chegando àquela tenda de lona, conheceram um senhor que se identificou como namorado da conselheira.  A alegria foi intensa iniciando-se a comemoração regada à bebida alcoólica “pinga tatuzinho”, quando então a conselheira conduziu o namorado a um cômodo, dividido por pedaços de cobertores velhos e, animados pelo efeito da bebida e da música sertaneja, tentavam manter relações íntimas, mas o choro da criança (bebê) que ainda tinha o cordão umbilical inteiro, tirava-lhes a libido. 

Nesse momento de tentativa frustrada, a conselheira gritava incessantemente: Mãe – faz essa criança parar de chorar. A criança estava sobre um pequeno colchão de mais ou menos 20 cm por 40 cm. Tinha ao seu lado uma lamparina de pavio de pano embebido em querosene. Besuntou-se também um trapo e colocou sobre a barriga do bebê, imaginando que a dor era umbilical. Como o choro e soluço continuaram a conselheira deu nova ordem, desta feita era para a parturiente cantar, preferencialmente a música “Dê amor pra quem te ama” (Milionário e José Rico)

O choro parou, a criança morreu, porque aquela lamparina caiu sobre seu corpo e incendiou o trapo que houvera sido colocado sobre o umbigo do menino. Flagrante desespero. Uma vida precocemente se foi. O que fazer?

No alvorecer da manhã seguinte, a conselheira e a parturiente levaram o corpinho do menino às escondidas e o sepultaram em um cemitério clandestino, situado à época numa estrada vicinal que dava acesso à zona rural, denominada Três Barras. A morte não foi planejada, mas a ocultação sim.

A imprevisão dos envolvidos aconteceu, a conselheira e a mãe da criança foram presas, porém, sérios problemas sociais surgiram, vez que seis crianças ficaram desamparadas e se aglomeravam na delegacia. Inocentemente corriam nas dependências da unidade policial na expectativa de ter de volta aquela mulher que exerceu, carinhosamente, o papel de mãe uterina. A liberdade da conselheira e da parturiente era, naquele momento, medida que se impunha.

Levadas a júri popular, a conselheira e a mãe da criança foram absolvidas, por decisão unânime dos jurados, prevalecendo, dessarte, a tese sustentada pelos criminalistas: dr. Luiz Carlos Saldanha e pelo saudoso e destacado tribuno dr. Gilberto Gonzales.

O que teria prevalecido; o bem se sobrepôs ao mal?

 Fonte: Adepol/MS